22.10.2011
Rita Siza
A marcha indígena de mais de 600 quilómetros, desde a floresta amazónica até à capital da Bolívia, para contestar a construção de uma auto-estrada em terrenos da sua reserva natural, teve final feliz para os manifestantes, com o Presidente Evo Morales a anunciar o cancelamento do projecto.
Os indígenas, que tinham sido recebidos de forma apoteótica em La Paz, com milhares de pessoas na rua em solidariedade com o seu protesto, estavam acampados há dois dias na Praça das Armas quando lhes chegou um recado do Presidente. “O assunto está resolvido”, garantiu Morales.
A notícia voltou a levantar a capital numa onda de celebração, com bandeiras, músicas e cartazes a assinalar a vitória dos “heróis” do Território Indígena do Parque Nacional Isidoro Sécuro, entretanto baptizados pela imprensa como os “marchistas de Tipnis” (TIPNIS é o acrónimo pelo qual é conhecido o parque).
Dessa zona remota, em plena floresta amazónica, partiram cerca de dois mil manifestantes, que caminharam durante 65 dias para fazer chegar directamente ao Presidente Evo Morales a sua mensagem de oposição à construção daquela infraestrutura que, alegam, arruinará o seu habitat e o seu modo de vida.
A opinião de Morales era a oposta: a nova estrada permitiria o desenvolvimento económico e a integração regional, logo a melhoria das condições de vida das comunidades indígenas, como repetiu em defesa do projecto.
Projecto financiado pelo Brasil
A polémica diz respeito à construção de uma auto-estrada de pouco mais de 300 quilómetros de ligação Norte-Sul, que principia em território brasileiro e desemboca no oceano Pacífico, na costa da Bolívia. Trata-se de um projecto de 415 milhões de dólares, financiado quase exclusivamente pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES) do Brasil e cuja obra foi atribuída à construtora brasileira OAS.
Estendida entre as províncias de Beni e Cochabamba, no centro da Bolívia, a reserva seria trespassada e dividida ao meio pelo troço de 177 quilómetros que liga San Ignácio de Moxos a Villa Tunari. O parque é o “território ancestral” de uma comunidade de cerca de 12 mil indígenas, de três grupos étnicos, cuja subsistência depende exclusivamente dos recursos da floresta (caça, pesca e agricultura).
“Se este território, um parque nacional, for dividido, 21 áreas protegidas vão ser irremediavelmente destruídas”, declarou o porta-voz dos indígenas do Tipnis, Fernando Vargas. “E para quê? Para semear coca e produzir mais droga, nada mais”, denunciou.
A marcha de protesto dos residentes na reserva amazónica começou há mais de dois meses e ganhou relevância mundial quando, a meio do trajecto, os manifestantes foram impedidos de prosseguir numa inesperada e violenta acção policial na localidade de Yucumo. As imagens da força anti-motim, armada com escudos e bastões, a investir contra os manifestantes, causaram perplexidade e indignação: dois ministros do governo de Morales demitiram-se em desacordo contra o uso da força.
Das palavras aos actos
Depois do desastre inicial na gestão do protesto, o Presidente prometeu diálogo com os manifestantes.
Morales, que em sete anos de poder nunca conheceu tamanha contestação, começou por suspender o projecto e anunciar a realização de um referendo local para aferir da viabilidade da construção.
Hoje, depois de uma reunião com 25 delegados indígenas no Palácio Quemado de La Paz, o Presidente pôs um ponto final no assunto. Não só confirmou o cancelamento da construção (uma decisão que terá de ser ratificada pelo Congresso, onde Morales detém a maioria), como fez saber que o TIPNIS será declarado “área intangível”, um estatuto reforçado de área protegida que virtualmente inviabiliza qualquer construção naquele território.
As palavras do Presidente permitiram aliviar a tensão dos últimos meses, mas ainda assim os indígenas reagiram com cautela. “Das palavras aos actos ainda há um longo caminho a percorrer. Vamos continuar a falar com o Presidente e estabelecer as regras do jogo. Não podemos dizer que está tudo resolvido, até porque temos outras exigências que ainda não foram atendidas”, sublinhou Fernando Vargas. Entre outras reivindicações, os indígenas querem, por exemplo, paralisar as actividades de exracção e transporte de hidrocarbonetos no sul do país e ser compensados pela emissão de gases com efeito de estufa.
Declínio do apoio a Morales
Como explicou o analista político boliviano Jorge Lazarte à BBC Mundo, “este é o pior momento político para o Governo. Há mais de um ano que se assiste a um processo contínuo de declínio do apoio popular a Evo Morales, que lentamente tem vindo a romper relações com os movimentos sociais que o levaram ao poder. Mas nunca, como agora, o Governo pareceu tão distante da população”, considerou. Ao ceder e chegar a acordo com os manifestantes, o Presidente “expôs a sua fragilidade”, opinou.
Para Lazarte, a situação para Morales, o primeiro líder indígena da Bolívia, era especialmente delicada, uma vez que o incidente pôs em causa “a própria identidade” do seu Governo. Vários observadores sublinham que se percebeu claramente a existência de diferenças e tensões entre os grupos indígenas minoritários, circunscritos às terras baixas da floresta amazónia, e as etnias dominantes do chamado “altiplano andino” – nomeadamente os Aymara, a que Morales pertence.
Outros analistas sustentam, porém, que apesar da erosão, Morales ainda detém capital político suficiente para ultrapassar o “episódio” sem grandes mazelas. “Aqueles que se apressaram a decretar o início do funeral de Morales esquecem que a Bolívia está a recolher os benefícios de uma economia estável, que a oposição política é incipiente e fragmentada e que não existe, a nível nacional, nenhum outro líder com o mesmo carisma.
"Se as eleições presidenciais fossem hoje e não em 2014, Evo Morales teria outra maioria absoluta”, estimou Martin Sivak, autor da biografia “Evo Morales: O Percurso Extraordinário do Primeiro Presidente Índigena da Bolívia”.
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