Confirma-se a Terra aquece demasiado depressa e a temperatura média deverá aumentar mais 1,8 a 4 graus centígrados, daqui até ao final do século. Esta é a "melhor das estimativas" de seis cenários equacionados com um intervalo mais largo de probabilidades - de 1,1 a 6,4 graus - comparados com o período 1980-1999. Mas já não se poderá evitar o aumento médio de pelo menos 0,1 graus em cada década. Secas e tempestades e subida do nível médio dos oceanos de 18 a 58 centímetros são outras previsões dramáticas do 4.º relatório apresentado ontem pelo Grupo intergovernamental de Peritos sobre a Evolução do Clima (GIEC), num aviso sem precedentes da comunidade científica para a amplitude do aquecimento global e numa insistência quanto à responsabilidade humana no fenómeno.Dramáticas, mas expectáveis, face a antecipações dos últimos dias e a sucessivos estudos, as conclusões apresentam porém uma novidade os 500 especialistas de 130 países consideram haver 90% de probabilidades de acertarem nas suas previsões. No último relatório, de 2001, só arriscavam 66%. Apesar de as previsões se reportarem ao horizonte 2100, também já é certo que a temperatura continuará a aumentar nos próximos séculos e para além do milénio... Nunca um grau de certeza foi tão forte, depois da criação, pela Organização das Nações Unidas, em 1988, de uma vasta rede mundial de especialistas, nem tão expressamente vincada a responsabilidade dos gases com efeito de estufa (especialmente o dióxido de carbono) lançados para a atmosfera pelas sociedades "energívoras em petróleo, gás e carvão", na expressão certeira de uma jornalista da AFP, Anne Chaon. "Tudo converge para demonstrar a parte essencial do homem" no aquecimento global, disse o presidente do grupo, reunido desde segunda-feira passada em Paris, onde ontem o presidente da República francesa iniciou uma conferência internacional para a governação ecológica, enquanto as campainhas de alarme soavam nas principais capitais europeias, recolocando a necessidade de revisão dos acordos internacionais e de decidir sobre o futuro do Protocolo de Quioto (instrumento internacional destinado a reduzir as emissões de gases poluentes).Em Washington, George W. Bush terá acolhido "sem reservas" as conclusões do GIEC, mandando um porta-voz da Casa Branca declarar que o relatório "continuará para o conjunto dos conhecimentos para estudarmos e compreendermos a melhor maneira de responder aos desafios das alterações climáticas". Mas sem esboçar qualquer sinal de revisão da resistência ao Protocolo de Quioto, apesar das suas responsabilidades de grande poluidor (com 5% da população mundial, os EUA respondem por um quarto das emissões totais de CO2). * Com agências AFP e Lusa+ 1,8 ºC (1,1-2,9 ºC)O menos poluente, fruto de um Mundo convergente, diminuição da população e políticas de viabilidade económica e ambiental a nível mundial.+ 2,4 ºC (1,4-3,8) Crescimento muito rápido apoiado em energias não fósseis e tecnologias mais eficientes.+ 2,4 ºC (1,4-3,8 ºC)Viabilidade económica, social e ambiental com soluções locais.+ 2,8 ºC (1,7-4,4 ºC)Uso de energias fósseis e outras, com introdução rápida de tecnologias mais eficientes.+ 3,4 ºC (2-5,4 ºC)Mundo muito heterogéneo e desenvolvimento económico de orientação regional.+ 4 ºC (2,4-6,4 ºC)O mais poluente num mundo de crescimento muito rápido com recurso a energias fósseis.Principais conclusões do Relatório de peritos O essencial do aumento da temperatura média do Planeta desde meados do século XX deve-se, com 90% de certeza, ao aumento de gases poluentes emitidos pelo homem. As emissões mundiais de CO2 devidas ao uso de energias fósseis passaram de 6,4 mil milhões de toneladas por ano na década de 90 para 7,5 mil milhões anuais entre 2000 e 2005.O aquecimento na atmosfera e no oceano e a diminuição das massas de gelo conduzem à conclusão de que é "extremamente inverosímil" (ou seja, tem menos de 5% de probabilidade de se realizar) que as alterações climáticas mundiais dos últimos 50 anos possam ser explicadas apenas por causas naturais.As emissões "passadas e futuras de CO2 continuarão a contribuir para o aquecimento e para o aumento do nível médio do mar durante mais de um milénio", devido à duração da vida dos gases com efeito de estufa na atmosfera.Os 11 anos mais quentes desde que há registos de temperatura do ar à superfície (1850) ocorreram nos últimos 12 anos.A tendência de aquecimento nos últimos 50 anos (+0,13 graus por década) é aproximadamente o dobro da tendência dos últimos 100 anos.No fim do século, as temperaturas deverão aumentar entre mais 1,8 a mais quatro graus em relação a 1980-1999. Estas "melhores estimativas" são os valores médios de um intervalo mais largo 1,1 a 6,4 graus. As observações desde 1961 mostram que a temperatura média do oceano mundial aumentou até uma profundidade de três mil metros e que este absorveu mais de 80% do calor acrescentado ao sistema climático.O aquecimento da água do mar provoca a sua dilatação. O nível médio dos oceanos poderá aumentar, segundo vários cenários, entre 18 e 59 centímetros. Um aumento de 1,9 a 4,6 graus em relação à era pré-industrial causará o desaparecimento completo do gelo da Gronelândia e o aumento do nível do mar em cerca de sete metros.As simulações indicam diminuições de gelo no mar tanto no Árctico como na Antárctida em todos os cenários. Nalgumas, o gelo desaparece quase completamente no Árctico no final do Verão na segunda metade do século actual.Há mais de 90% de probabilidades de confirmar-se que o calor extremo, vagas de calor e os episódios de fortes precipitações serão cada vez mais frequentes.