
O presidente francês, Jacques Chirac, apelou ontem em Paris a uma tripla "revolução" ecológica para que o mundo entre na era do desenvolvimento sustentado. "Estamos à beira do irreversível, chegou o tempo da revolução das consciências, da economia e da acção política", disse no discurso de abertura da conferência internacional de Paris, após o lançamento do relatório do IPCC.Diante das cerca de duzentas personalidades políticas, científicas e culturais de 60 países, Chirac propôs a criação de uma Organização das Nações Unidas para o Ambiente. A ideia consiste em transformar o programa das Nações Unidas para o ambiente numa instituição independente, capaz de avaliar as ameaças ligadas às alterações climáticas e de pôr em prática as medidas decididas multilateralmente. Chirac pretende que se constitua um grupo de países pioneiros para lançar as bases desta instituição. Convidado a discursar na sessão de abertura da cimeira, o presidente da Comissão Europeia instou os responsáveis políticos a assumirem um papel mais importante na protecção do ambiente e na luta contra o aquecimento global. "Hoje, os cientistas do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas passaram-nos o testemunho", afirmou Durão Barroso, numa referência ao relatório divulgado horas antes, que resume os dados científicos disponíveis sobre a matéria.Lembrando que há hoje mais de 400 protocolos e convenções internacionais em matéria ambiental, Durão Barroso disse partilhar a ideia de que há uma falta de coerência nos dispositivos internacionais perante os desafios ambientais. "A Comissão Europeia apoia uma abordagem mais coordenada, nomeadamente pelo reforço das instituições no que toca ao seu mandato, às suas competências e ao seu financiamento", disse em declarações à imprensa. No entanto, nenhuma decisão foi ainda tomada. Durão Barroso fez notar que "a ideia de uma nova instituição agora lançada pela França é muito interessante, mas a Comissão Europeia deve reflectir um consenso generalizado, que ainda não existe na União Europeia" sobre a questão. Cabe assim a cada um dos Estados membros definir a sua posição, no quadro das Nações Unidas.O presidente da Comissão Europeia salientou o papel impulsionador da União Europeia ao propor-se reduzir as suas emissões de CO em 30% até 2020. Quanto aos EUA, que se mantêm à margem do protocolo de Quioto, Durão Barroso disse estar "confiante" numa mudança de posição. "Posso garantir que há hoje nos Estados Unidos uma maior consciência da urgência deste problema devido, sobretudo, à preocupação crescente com as questões de segurança energética", disse.Em nome do Governo português, o ministro do Ambiente disse ao DN que Portugal "concorda com a criação de uma ONU para o ambiente e que participará nas suas actividades quando essa organização for criada". Convidado a participar num dos seis debates que decorreram durante a tarde de ontem, Nunes Correia referiu ainda que "o pacote de medidas anunciadas na semana passada pelo primeiro-mi- nistro demonstram que Portugal aponta para metas que o colocam na linha da frente das iniciativas europeias em matéria ambiental" .Nicolas Hulot, apresentador de televisão francês e militante ecologista, encerrou a sessão com uma palavra de esperança, sublinhando que "o desafio ecológico encerra também a oportunidade de voltar a dar sentido à ideia de progresso"
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