
De repente, o clima - ou a sua ruptura, tal como o conhecíamos - transformou-se no tema "quente" do momento, e a necessidade de acção para prevenir um desastre irreparável parece emergir finalmente como prioridade mundial.Quase 20 anos depois de ter sido criado, em 1988, pela ONU, o IPCC (o painel de peritos para avaliação das alterações climáticas) divulgou ontem, em Paris, o seu relatório mais mediático, inequívoco e alarmante de sempre, sobre a questão. Temperaturas em alta, concentrações de dióxido de carbono (CO ) a subir, nível dos oceanos na mesma onda, chuvas torrenciais, secas mortíferas, o rol que afinal já se esperava, depois de uma semana de fugas de informação sobre o seu conteúdo. A responsabilidade do que está a acontecer ao clima, como escreve o IPCC, está bem identificada. Pertence com certeza quase absoluta (90% de certeza) à acção humana, garante pela primeira vez o IPCC neste relatório científico, recheado de números e gráficos que não deixam margem a dúvidas.Os dados divulgados pelo IPCC mostram que a concentração de CO na atmosfera, o principal gás com efeito de estufa, vai aumentar até final do século, devido à queima de combustíveis fósseis, até às 550 partes por milhão (ppm). Para se ter uma ideia do que isto representa, esse valor é hoje de 379 ppm, mas antes da revolução industrial, há 150 anos, não passava de 270 ppm. A diferença pode parecer pequena, mas os efeitos deste aumento vão traduzir-se numa subida média da temperatura que andará pelos três graus Celsius até 2100.Os seis cenários traçados no relatório prevêem uma subida mínima da temperatura média em 1,8 graus Celsius e um valor máximo de 6,4 graus no pior dos cenários.Em qualquer caso, o aumento da temperatura é certo e, com ele, virá uma lista de convulsões climáticas, com os fenómenos extremos (chuvas torrenciais nas latitudes médias e secas intensas nas regiões tropicais) a tornarem-se mais frequentes.Uma das consequências mais temíveis em toda esta questão é a subida do nível dos oceanos. Apesar das incertezas científicas sobre a sua medida exacta - o degelo das calotes polares, no seu ritmo e consequências, está ainda cheio de incógnitas -, a subida é certa. A margem de incerteza anda entre os 18 e os 60 centímetros. Mas como explicava o climatologista e vice-presidente do grupo de trabalho que produziu o relatório, Jean Zouzel, "uma subida de 40 cm transformará 20 milhões de pessoas no planeta em refugiados".As reacções ao relatório foram imediatas, unânimes e generalizadas. Políticos, ambientalistas e cientistas afinaram em uníssono pela necessidade de acção urgente e concertada entre os Estados para a redução das emissões atmosféricas.Um deles foi Nicholas Stern, conselheiro do Governo britânico e autor do recente relatório que quantificou os custos económicos da inacção face ao aquecimento global (5% do PIB mundial). Stern garante que a solução do problema passa pelo alargamento do mercado europeu de emissões aos outros países, industrializados ou em desenvolvimento, pelas tecnologias limpas e pelo fim do desperdício energético. Outra voz forte que ontem se fez ouvir foi a de Yvo de Boer, o "patrão" do clima na ONU, que lançou um desafio aos decisores políticos: a realização de uma cimeira sobre o clima, antes de Novembro, para que a próxima conferência da ONU, em Bali, em Dezembro, não falhe nas decisões que terá que tomar sobre o que vai seguir-se a Quioto.
Sem comentários:
Enviar um comentário