Páginas

terça-feira, janeiro 27, 2009

Aventura das enguias vai ser mais protegida

Ciclo de vida passa por milhares de quilómetros. "Stocks" estão em perda
2009-01-24
EDUARDA FERREIRA
A população de enguias diminui em Portugal e no resto da Europa. Por cá, a monitorização feita por cientistas revela que a saúde da espécie não está mal, mas a sua apanha ilegal como angula ou meixão ameaça a conservação.
Reproduzem-se a seis mil quilómetros da costa portuguesa, no Mar dos Sargaços, e chegam à nossa plataforma continental ainda como angulas ou meixão. Irão atingir a maioridade nos nossos rios, estuários e lagoas costeiras. Se muitas não chegarem a essa fase, não se dá o retorno até ao outro lado do Atlântico e não haverá reprodução.
Parte da aventura desta espécie é acompanhada pelos cientistas Isabel Domingos e Lino Costa, do Instituto de Oceanografia, da Faculdade de Ciências de Lisboa. Estes biólogos desenvolveram um projecto, em conjunto com o Oceanário de Lisboa, para analisar o impacto dos metais pesados e de um parasita na população de enguias (este último não é prejudicial á saúde humana). O estudo só fica concluído em Junho, mas eles podem adiantar já que os níveis de mercúrio, cádmio, cobre, zinco e chumbo "são relativamente baixos face ao de enguias de outros países europeus", sobretudo os do Norte. É certo que o mercúrio ainda subsiste em zonas do Barreiro e Aveiro (de cuja Universidade contaram com a colaboração de Eduarda Pereira). Mas, resumem, "são boas notícias".
Os dois biólogos têm doutoramento em enguias (Isabel Domingos) e pós- doutoramento no mesmo tema (Lino Costa). Eles deram o seu contributo científico a uma comissão oficial que tem por tarefa avançar um plano de conservação das enguias a nível europeu (ver caixa ao lado). Não havendo dados anteriores, estes cientistas admitem que a população de enguias esteja a diminuir. Contributos: a apanha do meixão (que aliás só é legal em Portugal no Rio Minho, pois que em Espanha é permitida) e os obstáculos colocados pela regularização dos cursos de água, que também anulam ou reduzem a complexidade do meio necessária à alimentação das enguias. As alterações climáticas, com mudança de temperatura de águas e correntes, poderão puxar a espécie para Norte.
A nível europeu tem havido redução dos "stocks", afiançam os mesmos investigadores. E, alertam, "se cada país reduzir a população reprodutora, isso vai afectar o quantitativo da espécie". Isto diz respeito aos exemplares de enguia prateada, coloração correspondente à fase em que os adultos estão prontos a emigrar para o Mar dos Sargaços e aí reproduzir-se. Enquanto por cá estão, elas têm uma fase adulta dourada. Aos seis ou oito anos estão prontas para partir. Nessa fase têm em média 32 centímetros, no caso dos machos. A viagem pode demorar cerca de um ano.

Alemanha testa "fertilização" do oceano contra aquecimento global

O governo alemão deu luz verde a uma missão científica de "fertilização" do oceano com nanopartículas de minério de ferro para avaliar o potencial de absorção de dióxido de carbono, como medida de combate ao aquecimento global.
A experiência foi aprovada pela ministra alemã que prevê a "fertilização" de uma área de 300 quilómetros quadrados no Atlântico Sul com seis toneladas de nanopartículas de minério de ferro.
"Depois de analisados relatórios de peritos estou convencida de que não há qualquer objecção científica ou legal à experiência LOHAFEX", diz um comunicado da ministra alemã da Investigação, Annette Schavan, referindo-se à utilização de minério de ferro para promover o crescimento de fitoplâncton (plâncton vegetal) que por sua vez consome e armazena dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo efeito de estufa.
A decisão de Annette Schavan interpõe-se a um diferendo entre os ministérios do Ambiente e da Investigação da Alemanha sobre as consequências e efeitos secundários da técnica de "fertilização", em que o ministério do Ambiente alegava que a experiência entra em contradição com uma moratória sobre esse método de promover a absorção de CO2 aprovada na conferência da ONU sobre biodiversidade realizada em Bona em Mai de 2008.
O Convénio de Londres para a Contaminação Marítima e o Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas da ONU proíbem também práticas deste tipo.
A favor da experiência, o instituto de investigação polar alemão Alfred Wegener AWI - cujo navio oceanográfico Polarstern está envolvido no mapeamento do fundo oceânico a fertilizar - invocou uma cláusula da decisão da ONU que estipula que a moratória não se aplica a "projectos de investigação científica de pequena escala".
A eficácia da "fertilização" dos oceanos com minério de ferro é, no entanto, posta em questão desde Abril de 2007 depois da publicação na revista científica Nature dos resultados de um estudo realizado ao largo das ilhas Kerguelen - no sul do oceano Índico, entre o cabo da Boa Esperança e a Antártida - que revelou que a utilização do minério de ferro será entre 10 e 100 vezes menos eficaz que os processos naturais, uma vez que cerca de 90 por cento do ferro lançado acaba por se dispersar sem produzir os efeitos desejados.
Organizações ambientalistas têm também advertido para os potenciais, e ainda desconhecidos, efeitos secundários da fertilização dos oceanos com ferro, desde o impacto das nanopartículas nos ecossistemas marinhos até às reacções químicas entre o ferro e a água salgada que poderão dar origem a gases como o protóxido de Azoto (N2O) que tem um efeito de estufa muito mais grave que o CO2.

Alterações climáticas irreversíveis

Muitos efeitos nocivos das alterações climáticas são tidos já como irreversíveis. Mesmo que as emissões de dióxido de carbono sejam travadas, as temperaturas globais vão persistir elevadas até pelo menos ao ano 3000, concluem alguns cientistas.
O alerta é feito por uma equipa internacional de investigadores num estudo publicado na edição desta terça-feira da revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS ). "As pessoas imaginavam que se deixássemos de emitir dióxido de carbono (CO2), o clima voltaria à normalidade em 100 ou 200 anos. Isso não é verdade", assegura a principal autora do estudo, Susan Solomon, da Administração Nacional para os Oceanos e a Atmosfera (NOAA) dos EUA.
A investigadora considera "irreversível" essa alteração, pois mesmo que os humanos deixassem imediatamente de lançar carbono para a atmosfera, este estado nocivo permaneceria mil anos.
O estudo foi publicado após Barck Obama anunciar medidas para melhorar a eficiência dos combustíveis e a qualidade do ar, demonstrando que o futuro da Terra depende da diminuição da poluição do ar.
O presidente dos EUA apoia a entrada imediata em vigor da decisão da Califórnia de impor normas mais estritas que as federais para reduzir as emissões de CO2 dos automóveis, medida rejeitada pelo ex-presidente Bush.
Na perspectiva de Susan Solomon, "as alterações climáticas são lentas, mas imparáveis", um argumento que favorece uma acção rápida, para que a situação a longo prazo não piore.
A investigadora, que faz parte do Painel Internacional para as Alterações Climáticas da ONU, especifica no estudo que as temperaturas subiram em todo o planeta e que se podem observar alterações nos padrões de precipitação em áreas em torno do Mediterrâneo, da África Austral e do sudoeste da América do Norte.
O aquecimento climático está, ainda, na origem da expansão dos oceanos, que tende a aumentar com o degelo na Gronelândia e na Antártida, segundo os investigadores. "Não creio que tenha sido entendida a escala a muito longo prazo da persistência destes efeitos", salienta Susan Solomon.
O aquecimento global tem sido até agora travado pelos oceanos, isto porque a água absorve muita energia, segundo os cientistas. No entanto, esse efeito positivo vai desvanecer com o tempo, já que os oceanos vão acabar por devolver ao ar o seu calor acumulado, mantendo o planeta mais quente.
O estudo conclui que deixar o CO2 atingir 450-600 partes por milhão (ppm) vai te por efeitos quebras constantes de chuva nas estações e secas comparáveis à seca do "Dust Bowl" na América do Norte, nos anos 1930 em zonas, como o sul da Europa, o sudoeste da América do Norte, a África Austral e a parte ocidental da Austrália.
Esta diminuição da chuva vai persistir durante vários séculos, tendo consequências diferentes segundo as zonas geográficas. Tais como: a diminuição da água disponível a uma maior frequência de fogos, alterações de eco-sistemas e maior desertificação, conclui.
Os restantes autores do estudo são Gian-Kaspar Plattner e Reto Knutti, do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, com sede em Zurique, e Pierre Friedlingstein, do Instituto Nacional de Investigação Científica, em Gif-sur-Yvette, França.
A investigação foi apoiada pelo Gabinete de Ciência do Departamento da Energia dos EUA.

terça-feira, janeiro 20, 2009


A general view shows a "solucar" solar park in Sanlucar La Mayor, near Seville, Spain on November 6, 2008. The solar thermal power plant uses mirrors to concentrate the sun's rays onto the top of a 100 meter (300 foot) tower where it produces steam to drive a turbine, producing electricity

protecção do ambiente

Department of Water and Power workers are emptying out bales of plastic balls in the Ivanhoe reservoir in Los Angeles on Monday, June 9, 2008. Department of Water and Power released about 400,000 black plastic 4-inch balls as the first installment of approximately 3 million to form a floating cover over 7 acres of the reservoir to protect the water from sunlight. When sunlight mixes with the bromide and chlorine in Ivanhoe's water, the carcinogen bromate can form.

Legislação


"O mundo precisa de uma resposta urgente e coordenada para as alterações climáticas e, como disse o Presidente eleito Barack Obama, a América deve ser líder em desenvolvê-la e implementá-la".

Hillary Clinton, Reuters, 13-01-209

UE lança “Atlas Urbano” para ajudar um planeamento territorial inteligente


16.01.2009

Paulo Miguel Madeira


A União Europeia vai lançar este ano um “Atlas Urbano” com 185 cidades dos seus 27 Estados-membros, para os planeadores urbanos disporem dos dados mais actualizados e precisos possíveis sobre os usos e ocupação dos solos em todas as capitais europeias num vasto conjunto de grandes e pequenas cidades.
O “Atlas Urbano” vai disponibilizar mapas digitais, compilados a partir de milhares de fotografias de satélite, a preços mais acessíveis, de modo a permitir uma melhor avaliação de riscos, oportunidades e necessidades, que vão dos riscos de cheias aos impactos das alterações climáticas ou à identificação de novas necessidades de infra-estruturas de transportes.Na versão do atlas produzida este ano, estarão cobertas sete cidades portuguesas: Aveiro, Braga, Coimbra, Funchal, Lisboa Porto e Setúbal. A Comissão Europeia, que produz o atlas em conjunto com os Estados-membros, propõe-se ter o trabalho concluído em 2011, cobrindo então todas as cidades europeias.Ficará assim disponível uma classificação pan-europeia das zonas urbanas (áreas com usos de tipo semelhante), permitindo comparar informação sobre densidade de áreas residenciais, zonas comerciais e industriais, extensão das áreas verdes ou acompanhamento da expansão das manchas urbanizadas, o que é importante, por exemplo, para o planeamento dos transportes em áreas suburbanas.O vice-presidente da Comissão Europeia, Günter Verheugen, e a comissária da Política Regional, Danuta Hübner, afirmaram, citados num comunicado oficial: “As cidades europeias e a as autoridades municipais enfrentam importantes novos desafios para o futuro planeamento urbano dos próximos anos e este projecto fornece uma solução prática e a baixos custos para as suas necessidades. Através da utilização da tecnologia espacial europeia, vamos abrir oportunidades para aprendizagem mútua sobre a utilização do solo e ajudar as cidades a tomar decisões de investimento mais informadas.”Devido às economias de escala, os custos do mapeamento vão ficar em 2,45 euros por quilómetro quadrado, o que representa um décimo dos custos de outras metodologias. O projecto insere-se na aplicação serviço Monitorização Global do Ambiente e Segurança, tendo um apoio de um milhão de euros do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (Feder).

"Serpa Energias Renováveis, Construção e Ambiente Sustentáveis"

19.01.2009 - 15h17

Realiza-se de 27 a 29 de Março o certame "Serpa Energias Renováveis, Construção e Ambiente Sustentáveis", no pavilhão multiusos de Serpa, iniciativa da autarquia.O certame "permite colocar em contacto empresas, agências, instituições, associações e academias que, numa primeira instância, operem a partir da região, possuam o enquadramento temático e procurem maior projecção junto dos parceiros e dos consumidores", explicam os organizadores. "Os operadores nacionais terão a possibilidade de consolidarem a sua estratégia, lançar parcerias e conquistar novos consumidores. Os visitantes podem conhecer in loco produtos, sistemas, materiais e serviços para uma construção sustentável, energias renováveis e diminuição do consumo energético, possibilitando contactos com fabricantes e fornecedores para soluções domésticas, empresariais ou industriais. Num âmbito mais estratégico, aos visitantes profissionais, a participação nas conferências proporcionará a oportunidade de adquirirem conhecimentos teóricos e práticos. O público mais jovem, com ênfase para o de idade escolar, pode participar em oficinas dinâmicas com o objectivo do cativar para a temática".
Contactos:
Telef: 284.540.100 (Maria José Borralho)
Email: energias@cm-serpa.pt

Edifícios produzem 55% da poluição da cidade


Observatório criado para garantir eficiência energética e evitar desperdícios
01h00m
INÊS SCHRECK
Os edifícios produzem 55% das emissões de CO2, já que a electricidade é a energia mais usada e poluente. O número tem de diminuir e a "arma" chama-se: Observatório para a Sustentabilidade Energética dos Edifícios do Porto.
Formalizado ontem, depois de uma fase experimental, o observatório, a cargo da Agência de Energia do Porto (AdePorto), tem a missão de verificar o desempenho energético e ambiental dos edifícios, novos ou reabilitados, e de garantir que na hora da aprovação de projectos, na Câmara do Porto ou na Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo, tudo seja feito para evitar desperdícios e obter uma boa eficiência energética.
O observatório não tem poderes para chumbar projectos. É uma unidade externa ao processo de licenciamento urbanístico, constituída por engenheiros civis e mecânicos, com acesso aos processos em curso, que funcionará como uma espécie de "conselheiro" para a excelência energética dos edifícios.
Para Oliveira Fernandes, presidente do Conselho de Administração da AdePorto, este é o momento certo para o aparecimento do observatório, já que se assiste a uma mudança na utilização da energia doméstica. Por enquanto, o aquecimento de água é a razão que leva ao maior consumo de electricidade nos edifícios, seguido do aquecimento do ambiente para conforto e da energia dispendida na cozinha. Mas, refere Oliveira Fernandes, na Europa a climatização dos espaços está à frente, pelo que é de esperar uma mudança também em Portugal. Aliás, no Porto, há cada vez mais edifícios com sistemas energéticos para climatização.
"Mais conforto pode significar mais energia", refere o responsável, lembrando a necessidade de melhorar a eficiência dos edifícios e de promover o uso de energias renováveis e do gás natural.
"Precisamos primeiro de convencer a população de que não há razões para ter medo de usar gás; temos de criar condições para a regulação de preços porque é escandaloso que o uso do gás possa ser mais caro do que a electricidade; e temos de fomentar uma instalação massiva do gás natural", enumerou Oliveira Fernandes, exemplificando que uma refeição cozinhada a electricidade produz mais do dobro de CO2 do que quando preparada a gás.
Os efeitos das melhorias ao nível da eficiência energética podem não se sentir hoje nem amanhã, mas vão sentir-se muito no futuro, realçou o presidente da Câmara Municipal do Porto, lamentando a resistência geral da sociedade civil às mudanças. "É preciso muita persistência para levar estas coisas avante", notou Rui Rio, considerando que o observatório é "mais um passo para a qualidade do urbanismo".

domingo, janeiro 18, 2009

Mudanças climáticas vão provocar crise alimentar

BRUNO ABREU
Fome. Um estudo de duas universidades norte-americanas prevê que em meados deste século a alimentação de uma boa parte da população mundial estará em causa devido aos efeitos na agricultura das alterações climáticas. Actualmente há 923 milhões de pessoas a sofrer de fome crónica
A humanidade vai enfrentar no futuro uma grave crise alimentar provocada pelos efeitos das alterações climáticas na agricultura. Foi a esta conclusão que chegou um grupo de cientistas das universidades norte-americanas de Seattle e Stanford, depois de analisarem 23 modelos climáticos que prevêem as temperaturas para os verões de 2050 e 2090. As zonas equatorial e subtropical são apontadas como as de maior risco, prevendo-se que as temperaturas moderadas do futuro sejam semelhantes às mais extremas registadas desde 1900. Mas Portugal e outros países mediterrânicos também podem ser afectados, alertam especialistas nacionais.A crise alimentar do início do ano passado foi um aviso para aquilo que a equipa de cientistas liderada por David Battisti prevê para este século. Segundo o estudo, no futuro, os verões serão muito mais quentes do que actualmente e isto vai provocar uma grave quebra na produção de cereais nas zonas tropicais e subtropicais. Os resultados vão ser crises alimentares."As plantas dos trópicos precisam de mais energia do que de água. Os aerossóis, que tornam a atmosfera mais opaca, dificultam a chegada de energia às plantas para que elas realizem a fotossíntese", explica ao DN Pedro Viterbo, coordenador científico do Instituto de Meteorologia. O Sul dos EUA, o Norte da Argentina, a África, o Norte da Índia, o Sul da China e a Austrália serão os mais afectados. Ironicamente, estas regiões são maioritariamente pobres e com grande crescimento demográfico.Além dos 23 modelos climáticos analisados, os autores do estudo debruçaram-se, ainda, sobre duas das mais graves crises alimentares e climáticas de sempre. Em 2003, uma onda de calor assolou a Europa e matou 52 mil pessoas. Em França, a temperatura média registada foi mais alta em seis graus Celsius do que o habitual. Esta variação foi a suficiente para reduzir um terço da produção e armazenamento de cereais. O outro caso estudado aconteceu em 1972, na Ucrânia, considerada na altura o celeiro da antiga União Soviética. A onda de calor do Verão desse ano reduziu a produção de cereais e houve uma quebra nos mercados mundiais. "O que me assustou mais é que, quando olhamos para exemplos históricos, vemos que sempre existiram formas de responder ao problema nesse dado ano", disse Rosamond Naylor, que fez parte da equipa de Battisti . João Melo e Abreu, professor do Instituto Superior de Agronomia (ISA), avisa que as regiões de clima mediterrânico também podem ser afectadas: "Em Portugal continental projecta-se para 2100 um aumento da temperatura média de 30C para as regiões costeiras e 70C para o interior." Mas de que forma pode isto influenciar a agricultura em Portugal? Nas regiões com um clima moderado, "a temperatura pode tornar- -se supra-óptima para o crescimento ou mesmo letal". Estas variações podem levar a alterações nos hábitos dos agricultores e mesmo a migrações forçadas dos animais e plantas para zonas mais moderadas: "Muitas aves migratórias chegam aos locais de nidificação mais cedo ou passam a viver nessas paragens. Muitas espécies invasoras têm prosperado, insectos principalmente, o que poderá estar relacionado com as alte- rações climáticas."Implicações económicas e sociaisPara os autores do estudo, a única maneira de enfrentar este problema seria os agricultores e criadores de pecuária substituírem os produtos cultivados e as espécies animais por outras mais resistentes ao calor, além de apostarem em novas tecnologias agrícolas. Mas isto pode gerar outros problemas, alerta João Melo e Abreu: "Os custos de produção vão aumentar em muitas regiões devido aos custos das medidas de adaptação" a novos sistemas agrícolas. Isto vai levar ao aumento dos juros e prémios de seguro devido ao aumento do risco: "Os pequenos produtores podem ficar afastados das soluções tecnológicas viáveis e podem desaparecer, e a maioria deve sofrer reduções drásticas nos lucros", diz, dando como exemplo os agricultores do Sri Lanka e do Norte do Brasil que serão dos mais afectados. A razão prende-se com a vulnerabilidade destas regiões perante a escassez da água. "Por exemplo, na Índia cerca de 50% da população terávulnerabilidade alta, enquanto em Portugal praticamente toda a população terá vulnerabilidade muito baixa a média.""Temos de repensar os sistemas agrícolas como um todo, não só pensar em novas variedades mas também reconhecer que muitas pessoas vão desistir da agricultura, e ainda mais pessoas vão migrar para outros locais", alertam os autores do estudo.João Melo e Abreu acrescenta que a coordenação internacional é fundamental "para implementar e avaliar medidas de adaptação" que permitam uma diminuição das emissões de gases de estufa. "A adaptação nos aspectos não tecnológicos tem de ser desenvolvida", pois, segundo o professor, as medidas tecnológicas adaptadas isoladamente não "estão à altura dos desafios desencadeados pelas alterações climáticas."