
Nelson Marques
Protótipo do avião solar é apresentado segunda-feira
Um impulso solar para um mundo melhor
Em 2011 o avião estará pronto para a sua viagem de circum-navegação
O sonho de Bertrand Piccard já esteve mais longe de se tornar realidade: o aventureiro suíço que, em 1999, completou a primeira volta ao Mundo num balão sem realizar qualquer escala, quer repetir a circum-navegação do planeta, desta vez a bordo de um avião movido unicamente por energia solar.
O projecto, iniciado há quatro anos com o objectivo de promover as energias renováveis, entra segunda-feira numa fase decisiva. Em Dübendorf, uma localidade nos arredores de Zurique, na Suíça, será revelado o protótipo do aparelho que, em 2009, irá tentar manter-se no ar durante 36 horas, abrindo caminho para a concretização do objectivo final, dois anos mais tarde.
Avião solar voará à noite
Os detalhes técnicos do protótipo, conhecido como HB-SAI, só serão revelados na conferência de imprensa de amanhã, mas alguns pormenores são já conhecidos. Construído com materiais ultraleves, resistentes e elásticos para evitar rupturas, o avião pesará menos de duas toneladas e terá células fotovoltáicas instaladas nas imensas asas de 61 metros de envergadura, que captarão a energia e a armazenarão em baterias de lítio.
Este pormenor é decisivo, já que garantirá autonomia de voo "mesmo após o pôr-do-sol". Os actuais aviões solares não foram concebidos para armazenar energia, pelo que são obrigados a aterrar após algumas horas de voo, quando a luz solar se torna insuficiente (devido ao céu nublado ou ao cair da noite). "O Solar Impulse não é o primeiro avião solar concebido pelo homem, mas é certamente o mais ambicioso", garantem os promotores da iniciativa.
Testes, testes e mais testes
A construção do aparelho arrancou em Junho e deverá estar concluída no próximo Verão. Se o calendário for cumprido, antes da realização de um voo de 36 horas em 2009, o aparelho será submetido a rigorosos testes que deverão começar no Outono de 2008. Esta fase é decisiva, já que na mente de todos está ainda o desfecho do Hélios, o avião solar da NASA que, em 2003, se partiu ao meio 29 minutos depois de ter descolado. Até lá, permanecerá o suspense sobre a possibilidade do avião resistir à noite e prosseguir a sua missão.
Com os conhecimentos adquiridos durante o processo, será depois desenvolvido um outro avião para tentar realizar vários ciclos de voo de 24 horas, levando ao primeiro voo solar transatlântico em 2011 e, depois, à circum-navegação do planeta. A aeronave poderá levar apenas um passageiro de cada vez e deverá fazer cinco paragens, uma em cada continente, para apresentar a iniciativa ao público e às autoridades políticas e científicas.
70 milhões de investimento
Dois pilotos irão alternar com Piccard nos comandos do aparelho: Bryan Jones, companheiro de viagem do suíço na aventura do Breitling Orbiter 3, e o engenheiro e piloto de caças André Borschberg, director executivo do projecto. Cada etapa irá demorar quatro a cinco dias, considerado o tempo máximo que um piloto pode aguentar.
Para completar a aventura, serão investidos ao longo dos próximos anos cerca de 70 milhões de euros, 44 dos quais dedicados ao desenvolvimento do primeiro protótipo.
Bertrand Piccard: O Philleas Fogg do séc. XXI
Piccard é filho e neto de peixe, que para além de saber nadar, também sabe voar
O suíço Bertrand Piccard é uma espécie de Philleas Fogg dos tempos modernos. Psiquiatra de formação, Piccard, de 49 anos, já havia realizado em 1999, a bordo do Breitling Orbiter 3, a primeira volta ao Mundo num balão sem qualquer escala.
O desejo de aventura faz parte do código genético da família, já que Piccard representa a terceira geração de uma família de exploradores famosos. No início dos anos 30 do século XX, o avô, Auguste Piccard, realizou os primeiros voos na estratosfera numa cápsula pressurizada.
Duas décadas mais tarde, desceu com o filho Jacques até aos 3150 metros de profundidade, ganhando a alcunha de "o homem dos extremos", aquele que tinha subido à maior altitude e descido às profundezas do oceano.
Foi já sozinho que, na década de 60, Jacques, estabeleceu o recorde de profundidade em mergulho ao comandar o submersível Triest 1 ao maior abismo da Terra, a "Challenge Deep", localizada na Fossa das Marianas, no Pacífico Ocidental, a quase 11 mil metros de profundidade. Dando seguimento ao trabalho do pai, acabaria por construir o primeiro submarino turístico.
Com uma herança assim, Bertrand só podia dedicar-se a desafiar utopias, como num romance de Júlio Verne
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