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sábado, janeiro 13, 2007

O Hidrogénio




Hidrogénio pode ser considerado como a “energia do futuro”?Sem dúvida!

Os países mais industrializados e desenvolvidos já o assumiram claramente. O Hidrogénio, em particular o Renovável, isto é, aquele que é produzido exclusivamente a partir de recursos energéticos renováveis, é o único combustível que no futuro poderá substituir os combustíveis fósseis e ao mesmo tempo ser totalmente não poluente e inesgotável (por ser integralmente reciclável).
Já não se coloca a questão de saber se o hidrogénio vai ser o combustível do futuro, o que permanece em aberto é saber quando é que ele será o combustível dominante. Os mais optimistas apontam para cerca de 20 anos, os menos optimistas para cerca de 50 anos.

Quais serão as principais fontes de obtenção do Hidrogénio?
No presente são vários os modos a que podemos recorrer para produzir o hidrogénio. Em teoria, o hidrogénio puro pode ser obtido a partir de qualquer molécula que o contenha. Porém, no futuro, só a sua produção a partir de recursos renováveis será sustentável. Durante o período de transição dos combustíveis fósseis para o hidrogénio, este pode ser obtido a partir dos próprios combustíveis fósseis. Antevejo, no entanto, que no futuro o hidrogénio será predominantemente produzido por electrólise da água usando energias renováveis. Só deste modo ele poderá ser considerado inesgotável, limpo e reciclável.

Não existem ainda muitas limitações técnicas e de segurança ao nível da produção e também ao nível do armazenamento, do Hidrogénio?
Creio que há sobretudo ainda muita falta de informação sobre o assunto. Quanto à tecnologia para o produzir, armazenar e utilizar, ela está perfeitamente dominada. Podemos no entanto argumentar que ainda é cara, mas isso será assim enquanto a produção/ utilização em grande escala não ocorrer. É frequente associar-se o sucesso da Economia do hidrogénio ao sucesso das pilhas de combustível. Como estas ainda não estão totalmente maduras para o mercado, é costume dizer-se que o hidrogénio virá, mas não agora. Discordo totalmente desta visão. O hidrogénio pode ser usado em tudo aquilo em que hoje usamos os combustíveis fósseis: para gerar electricidade com motores de combustão interna, com turbinas a gás e de ciclo combinado, pode ser usado nos transportes com motores de combustão interna (ou com pilhas de combustível), pode ser usado em todas as aplicações domésticas em que usamos, por exemplo, o gás natural. O hidrogénio é um combustível que sabemos como produzir e se estiver disponível no mercado a preços que sejam capazes de competir com os combustíveis fósseis, não terá necessidade de esperar por nenhuma tecnologia. Havendo hidrogénio disponível no mercado, a mudança de sistema energético pode começar hoje mesmo. Embora só no final do século XX se tenham atingido as melhores eficiências dos motores de combustão, não foi por isso que revolução industrial deixou de ter o seu início quase dois séculos antes. No que diz respeito à segurança, o hidrogénio, como combustível que é, deve ser tratado com o mesmo respeito que os outros combustíveis (em especial os gasosos). Se forem seguidas as normas adequadas, o hidrogénio é em muitos casos mais seguro que o próprio gás natural. Por exemplo, com o hidrogénio acaba o risco de morte por envenenamento com monóxido de carbono nas caldeiras domésticas de aquecimento de água. Com o hidrogénio o risco de incêndio numa viatura acidentada é muito inferior ao do carro a gasolina. As normas adequadas e o bom senso serão suficientes para garantir o uso do hidrogénio em segurança.

De que prazos estamos a falar quando falamos do Hidrogénio como energia do dia a dia?
O hidrogénio pode começar a ser a energia do dia a dia a partir do momento em que esteja disponível no mercado. Não precisaremos de esperar que os combustíveis fósseis acabem para que a mudança arranque. Precisamos de ter, isso sim, hidrogénio a preços capazes de competir com os dos combustíveis fósseis. A Idade da Pedra também acabou e não foi por falta de pedras. O nosso esforço e trabalho vai no sentido de conseguirmos colocar o hidrogénio em grande escala no mercado no prazo máximo de 3 a 5 anos. Porém, até ser a energia dominante teremos certamente um horizonte de 20 a 30 anos pela frente, na condição de começarmos agora.

Em termos nacionais, como é que estamos em termos de investigação e desenvolvimento nesta área?
Os poucos investigadores nacionais que trabalham nesta área estão bem informados do que se passa a nível internacional e desenvolvem trabalhos de ponta nestas matérias. Há uma vontade clara do actual Ministério da Ciência e do Ensino Superior em criar as condições para que a actividade de I&D em hidrogénio possa progredir rapidamente. Portugal, sendo um país sem recursos energéticos fósseis, pode e deve começar desde já a trabalhar com afinco na direcção da produção do hidrogénio renovável. Com o hidrogénio renovável temos condições para no futuro sermos, não só energeticamente auto-suficientes, como também exportadores de energia! Portugal tem condições para que o hidrogénio renovável possa ser a maior indústria que alguma vez tivemos.

Qual é o trabalho desenvolvido nesta área pelo LAMTec (Laboratório de Ambiente Marinho e Tecnologia)? e noutras áreas das Renováveis?
O esforço do LAMTec tem-se estendido a todos os elos da cadeia de produção / utilização do hidrogénio renovável. Porém, o esforço principal tem-se concentrado na introdução de novas medidas (legislativas e técnicas) capazes de conduzirem à produção de hidrogénio renovável em grande escala e a baixo custo. A divulgação tem sido outro dos grandes “cavalos de batalha”. Muitas destas iniciativas têm suporte financeiro da Comunidade Europeia, mas temos tido sobretudo uma abordagem dirigida às empresas privadas que possam estar interessadas em investir nesta área. Quanto às energias renováveis, o nosso esforço tem-se concentrado, sobretudo, na sua utilização dedicada à produção do hidrogénio renovável e não tanto na sua utilização convencional para a produção de electricidade para a rede de distribuição.

Quais as principais razões para os Açores desenvolverem o projecto H2idRA?
O programa H2idRA visa contribuir para tornar Portugal um país energeticamente auto-suficiente e exportador futuro de hidrogénio renovável. Os recursos energéticos renováveis necessários para atingir tal meta estarão acessíveis no território nacional à medida que for crescendo o consumo, porém, é nos Açores que estará o maior manancial desses recursos (cerca de 75% do total nacional). Assim, porque os Açores serão a nossa principal fonte energética futura, a iniciativa H2idRA arrancou nos Açores.

Existem apoios financeiros suficientes para o Projecto “H2idRA - Hidrogénio Renovável nos Açores”?
Como já referi, o Programa H2idRA é o somatório de vários projectos complementares com vista à integração do hidrogénio renovável no sistema energético nacional e ibérico. Deste modo, o financiamento do H2idRA é feito através do somatório dos financiamentos dos vários projectos e sub-projectos previstos e em curso. Nestes incluem-se quer projectos financiados a nível nacional e europeu, quer a nível de empresas privadas. Atendendo aos montantes em jogo, o sucesso do financiamento das várias iniciativas está fortemente ligado à presença e participação do investimento privado.

Qual o país líder na investigação destas tecnologias, hoje em dia?
Embora os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão liderem os programas mais antigos neste domínio, não seria justo não dizer que outros países têm vindo a desenvolver esforços intensos na adopção de medidas e programas que promovam o hidrogénio. Em particular, nos últimos anos a Europa tem desempenhado um papel de grande relevância neste domínio, sendo mesmo nalguns casos a locomotiva do processo. Apenas a título de exemplo, gostaria de referir o caso da Islândia, que fez a aposta de até 2030 ser o primeiro país e economia do mundo totalmente assente no hidrogénio renovável. Com visão e passos certos, Portugal também poderá ser um dos primeiros países do mundo a consegui-lo.

Prof. Mário Alves, a nível pessoal qual é a leitura que faz da utilização das energias Renováveis em Portugal e qual o futuro para as Renováveis?
No presente o uso das energias renováveis ainda é muito limitado. A excepção é a longa experiência nacional na hidroelectricidade, mas que representa apenas cerca de 5% dos totais energéticos consumidos em Portugal (electricidade mais combustíveis). Só agora estamos a dar alguns passos firmes na introdução da energia eólica. A geotermia já tem alguns anos nos Açores, mas o recurso é escasso face às necessidades nacionais. A energia solar (quer a térmica, quer a fotovoltaica) tem um potencial grande, mas continua fortemente sub-explorada, apesar dos incentivos. Em minha opinião, o grande salto será dado com a produção do hidrogénio renovável. Aí sim, poderemos assistir a uma expansão exponencial do uso das energias renováveis, o qual, apesar de tudo, deverá acontecer respeitando o ambiente e de forma ordenada.

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